Ao final da manhã, o sol já pesava sobre o sítio arqueológico do Templo Romano de Beja. Nada de novo para a equipa de arqueólogos que de forma árdua, e durante quase 30 anos, dedicaram tempo a desvendar o que está sob o chão que pisamos.
E nesta cidade o calor não é um detalhe. No verão, as temperaturas podem mesmo chegar aos 40 graus. Por isso, a jornada de trabalho da equipa ajusta-se aos valores do termómetro. O trabalho arranca às 6h00 e termina pouco depois das 14h00.
E foi num desses momentos de pausa que encontramos parte da equipa de arqueólogos, arquitetos e técnicos de património. Estão envolvidos no projeto Arqueologia das Cidades de Beja.
Trata-se de "um projeto de conhecimento científico que queremos partilhar e que tenha a capacidade de criar bem-viver às pessoas daqui. Que possam olhar não só as estruturas, mas que possam estar presentes nas políticas de criação de bem-viver", começa por explicar Conceição Lopes.
A arqueóloga conhece o chão que estávamos a pisar como quem conhece um mapa antigo. É investigadora do Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património da Universidade de Coimbra e coordenadora do projeto que tem a génese em 1997 altura em que fez as primeiras escavações, no âmbito da tese de doutoramento.
Mas a história do Templo Romano de Beja começou a revelar-se muito antes desta data, mais precisamente em 1943, quando a autarquia decidiu construir infraestruturas de abastecimento de água. E foi durante a abertura dos caboucos para os reservatórios que o arqueólogo Abel Viana identificou o topo de um muro e deu ordem para desviar a construção.
A partir desse momento, dá-se a descoberta. Desde então, apareceram pistas que mostravam várias cidades sobrepostas. "Para nós foi absolutamente surpreendente, não apenas os vestígios como a qualidade dos vestígios e o modo como estão conservados", fez questão de frisar a arqueóloga.
O trabalho de investigação da equipa permitiu identificar os vestígios encontrados como pertencentes à Idade do Ferro (Séc. VII a.C.), ao período romano e da presença islâmica, além de estruturas medievais e modernas. "Por baixo do que hoje conhecemos como a cidade de Beja há uma outra cidade escondida", refere a investigadora.
Fomos convidados a passear pelo sítio arqueológico para que ficássemos a conhecer a dimensão dos vestígios encontrados.
Numa área de cerca de um hectare está assente o fórum romano, a praça principal de Pax Julia, começa por dizer Conceição Lopes.
A arqueóloga explica que Beja, na época Romana, era a cidade Pax Julia "uma das grandes cidades da Lusitânia". Por isso, assumia na altura a capital de um convento, ou seja, administrava "do ponto de vista da justiça, um grande território que ia basicamente desde o Rio Tejo até ao Algarve", salientou.
Por esse motivo, um dos equipamentos urbanos essenciais das cidades romanas era o Fórum, um espaço onde se concentravam os poderes administrativos, judicial, político e religioso.
O entusiasmo de Conceição Lopes pelo projeto nota-se à medida que dá a conhecer o Templo. Refere que conseguiram concluir que era composto por uma zona sagrada, uma praça e uma basílica, onde funcionavam a administração e a justiça.
No espaço sagrado, refere a arqueóloga, ergue-se o que resta do templo dedicado ao culto imperial, construído depois da morte de Augusto, no Séc I (ano 14 d.C.), durante o reinado de Tibério, imperador romano. "Estamos a falar de uma praça que teria pelo menos 180 metros", adianta.
Nas fundações foi encontrada aquela que se pensa ser a base de uma estátua associada ao templo. A arqueóloga refere que séculos depois, as pedras do monumento romano terão sido reutilizadas na construção de igrejas cristãs e do próprio Castelo de Beja.
Percorrendo o sítio, Conceição Lopes descreve a monumentalidade do complexo arqueológico, transversal a várias épocas.
Numa outra área do sítio arqueológico, surgem marcas de outras épocas, uma delas o período islâmico. No solo, os orifícios deixados pelas talhas denunciam antigos espaços de armazenamento de cereais ou vinho. "Eram uma espécie de frigorífico para guardar esses produtos", graceja a investigadora.
Escavações conhecem nova fase
Desde que foram descobertos os primeiros vestígios, as escavações continuaram ao longo de várias décadas mas em 2021 foram suspensas. O projeto esteve parado mas, agora, cinco anos depois, os colherins voltam a ser usados pelos arqueólogos para encontrar algumas respostas.
Desde que foram descobertos os primeiros vestígios, as escavações continuaram ao longo de várias décadas mas em 2021 foram suspensas. O projeto esteve parado mas, agora, cinco anos depois, os colherins voltam a ser usados pelos arqueólogos para encontrar algumas respostas.
"Vamos retomar as escavações para responder a algumas questões de natureza científica, mas também de natureza relacionada com a conservação", fez questão de clarificar a arqueóloga Conceição Lopes.
"Às vezes, não é necessário deixar tudo à mostra, algumas coisas para se conservar têm de ser tapadas", explica Conceição Lopes. A prioridade, agora, é criar uma topografia que permita compreender o lugar sem o destruir.
"Às vezes, não é necessário deixar tudo à mostra, algumas coisas para se conservar têm de ser tapadas", explica Conceição Lopes. A prioridade, agora, é criar uma topografia que permita compreender o lugar sem o destruir.
É retomada a ideia inicial do projeto, ou seja, Conceição Lopes quer que deixe de ser apenas um lugar para especialistas, mas que possa ser visitado por grupos de escolas, habitantes de Beja e turistas. Ao mesmo tempo, o espaço continua a ser estudado, numa espécie de "espaço pedagógico", sublinha a arqueóloga. O objetivo é, também, "trazer as pessoas para dentro e não sermos só nós a sairmos para fora", acrescentou a arqueóloga.
Espaço vai passar a receber vistas
A visita pelo espaço leva-nos até ao edifício onde vai funcionar o futuro Museu Romano. E é a partir da varanda do edifício que a arqueóloga ajuda-nos a perceber melhor a dimensão do lugar que "a vista alcança".
A estrutura foi pensada de propósito para as visitas. "A partir da varanda, podemos ver o sítio e no interior do edifício podemos ver todo o material gráfico em diversos formatos que explicarão, de forma simples e ao mesmo tempo direto, de como era o sítio", salientou.
A partir dali, a intenção é que o visitante não seja obrigado a seguir um único percurso, mas sim ser ele a escolher a forma como vai visitar.
As visitas estão a ser programadas pela autarquia de Beja e uma das primeira está agendada já para o próximo mês de outubro.
Será num outro espaço que também vai integrar o roteiro das visitas: a Casa da Moeda. Um edifício que está quase pronto e que também foi descoberto pela equipa de arqueólogos, no decorrer das escavações.
O sítio, esculpido à mão, desvenda "uma das poucas casas em Beja do Séc. XVI".
Através dos vestígios encontrados foi possível associá-lo a uma casa onde se cunhavam moedas. De entre os artefactos encontrados, destacam-se cadinhos (recipientes refratários resistentes a temperaturas muito elevadas, utilizado para fundir, aquecer ou calcinar materiais), cisalhas (aparas de metal )e discos preparados para serem impressos.
"Será uma visita para assinalar os 501 anos do decreto da Casa da Moeda", referiu Conceição Lopes.
A ligação a outros espaços arqueológicos é, para o município de Beja, uma das mais-valias deste projeto. Está pensado para incluir visitas não só ao futuro Museu e ao Templo Romano como prolongar-se a outras vilas romanas como a de São Cucufate, na Vidigueira e a de Pisões.
Vítor Picado, vereador da Cultura, Património e Turismo da autarquia de Beja, pretende um projeto "menos intrusivo" para o espaço, capaz de revelar o potencial enquanto circuito pelo património romano.
Vítor Picado, vereador da Cultura, Património e Turismo da autarquia de Beja, pretende um projeto "menos intrusivo" para o espaço, capaz de revelar o potencial enquanto circuito pelo património romano.
380 mil fragmentos e 600 peças encontradas
De volta ao terreno, os arqueólogos continuam a desvendar vestígios que ajudam a perceber como foi a cidade antes de se tornar Beja. E uma dessas referências encontra-se nas estruturas ligadas à água.
"Esta é uma cisterna do Séc. XVI", explica Conceição Lopes, enquanto clarifica que abasteceu a cidade e funcinou até recentemente. "Isto justifica por que é que Beja, ao contrário de outras cidades romanas, não tem aqueduto. Não precisa. Tem os níveis freáticos tão à superfície que os poços e as minas criaram o sistema de abastecimento de água à cidade.", clarificou.
Durante estas quase três décadas de escavações foram encontrados mais de 380 mil fragmentos e à volta de 600 peças. Uma delas é um tanque do período de César.
Todas estas descobertas resultam do trabalho de várias equipas que, ao longo de décadas, desenvolveram investigação neste sítio arqueológico.
Entre os participantes estiveram estudantes de mestrado em Arqueologia, Arquitetura e Arquitetura Paisagista provenientes de diversos países, como o Paquistão, a Turquia, a Tunísia, o Brasil, a Argentina e a Itália. Participaram igualmente alunos das universidades de Coimbra, Lisboa e Évora.
Entre os participantes estiveram estudantes de mestrado em Arqueologia, Arquitetura e Arquitetura Paisagista provenientes de diversos países, como o Paquistão, a Turquia, a Tunísia, o Brasil, a Argentina e a Itália. Participaram igualmente alunos das universidades de Coimbra, Lisboa e Évora.
Conceição Lopes explica que se trata de um trabalho que é feito em articulação direta com o campo arqueológico de Mértola, que são uma espécie de consultores para as questões islâmicas.
Além de arquitetos, arqueólogos e técnicos de património da autarquia de Beja estão envolvidos alunos de doutoramento num projeto intermunicipal que reúne autarquia de Beja, Universidades de Coimbra, Algarve e La Sapienza (Roma).
O projeto Arqueologia das Cidades de Beja revelam histórias romanas, islâmicas, medievais e modernas que não desapareceram com as transformações da cidade.
Até lá, Beja continua a viver sobre a sua própria história. E sob os pés de quem hoje percorre o Templo Romano esconde-se outra cidade ainda longe de revelar todos os seus segredos.
Imagem e edição: Carla Quirino